Filosofia e Poesia: Ângelo Monteiro
Ângelo Monteiro no Café Colombo - 3
O poeta pernambucano recebeu a equipe do Café Colombo (www.cafecolombo.com.br) para conversar sobre o seu mais recente livro, "Todas as coisas têm língua". Uma conversa sobre o fazer poético, filosofia e influências. Na terceira parte, mais poemas de Ângelo e comentários sobre outros poetas.
Prof. Ângelo Monteiro: Filosofia e Poesia
AS PALAVRAS PERDIDAS
As palavras hoje ditas
dependem menos de quem as diz
do que daquele que as ouve.
Dependem menos ainda
do dia em que foram ditas
por alguém
que, com certeza,
as esqueceu.
Pois esquecer — apenas esquecer —
tornou-se a forma única de ser.
OS PONTOS CARDEAIS
Não conheço os pontes cardeais
nasci sem os pontos cardeais
vivo sem os pontos cardeais
e morro sem os pontos cardeais.
Meu astrolábio é um ser em agonia
e meu porto é além de todo cais.
O VICE DEUS
Pisando a terra com garbo
Despontei
Quando já tinham desabado
Todos os tronos e altares
No coração dos homens.
E as últimas manchas do grande crepúsculo
Se desdobravam sobre os horizontes
Impermeáveis a todas as florações de luz.
Mesmo assim pisei com garbo
—Apesar de banhado pela luz escura da ironia—
O tapete das luas mortas,
Algumas vezes detendo-me diante das piras apagadas
No altar de todos os deuses
Dantes encravado no coração dos homens.
Frustrado padre de um culto sem adeptos
Ainda me vi sagrado Papa e Imperador
De um mundo por sonhar.
Mas apesar da desproporção de tantos sonhos
Só consegui ser poeta. Porque só com a poesia
É possível iludir ou contrariar a realidade.
E, como não pude escapar do destino de poeta,
Tentei ser Vice Deus.
Pois nasci num país em que a maioria
Dos homens públicos e das mulheres públicas
Aspiram sempre, uns mais, outros menos,
Se tornar vices de alguma coisa.
De vice-presidente a vice-lixeiro
O posto de vice nunca perdeu a serventia
Por tentar a possibilidade
Perfeitamente em aberto
De alcança-se a vaga de titular.
Como ser vice é ser pela metade
Todos se julgam felizes
Porque a metade lhes exige menos que o todo.
Mas por não querer ser metade de nada
Resolvi me passar por Vice Deus.
Sim, por Vice Deus. De uma vez que ninguém até agora
Alcançou este título no mundo.
E como Deus não dorme, segundo o adágio,
Contento-me em ser apenas o seu vice
Embora saiba que não possa haver alguém
Que venha a atingir, em qualquer tempo, o seu poder.
Não importa! É uma forma que encontrei
De estar mais perto Dele.
Como sou inteiramente Vice Deus
Pelo menos não serei pela metade
Dou graças a Ele, que não é pela metade,
Por todos os séculos,
Amém.
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Extraído de:
2011 CALENDÁRIO poetas antologia
Jaboatão dos Guararapes, PE: Editora Guararapes EGM, 2010.
Editor: Edson Guedes de Morais
/ Caixa de cartão duro com 12 conjuntos de poemas, um para cada mês do ano. Os poetas incluídos pelo mês de seu aniversário. Inclui efígie e um poema de cada poeta, escolhidos entre os clássicos e os contemporâneos do Brasil, e alguns de Portugal. Produção artesanal.
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SAVARY, Olga, org. Carne viva. 1ª antologia brasileira de poemas eróticos. Rio de Janeiro: Editora Anima, 1984, 348 p. 14x21 cm. Capa: ilustração de Sérgio Ferro. Inclui 77 poetas ativos no final do século 20. Col. A.M. (EA)
o centauro
Teme a mim, que deito raízes
no limo de tua carne.
Teme a mim, que trago a vertigem
dos polvos para enredar-te.
Ó teme a mim, que te cavalgo
sobre o sangue vicejante:
como a um pasto de claridade
aberto ao meu horizonte.
Como a um pasto a que eu sem freios,
e selvagem me descontraio,
teme: não tanto ao meu vermelho
mas à cor do meu desmaio.
Teme: não ao fogo desperto,
antes ao fogo dormido.
Não ao claro sol que te cresta
mas, ao que te rasga, escondido.
sol secreto
Entre túmidas colinas
de sedas mornas e claras;
nas tuas internas minas
queimas tua luz avara;
internamente lavrando,
sem que jamais se consuma,
seu fogo pobre, seu fogo
que de ser brando costuma.
Página publicada em janeiro de 2011; ampliada e republicada em março de 2015 com a colaboração de Sérgio Castro Pinto
| Ângelo Monteiro é um poeta e filósofo brasileiro. Nascido em Penedo, Alagoas, filho de um cirurgião dentista e uma operaria da indústria textil. Com a morte de sua mãe, mudou-se com a família para Pernambuco, onde, depois de se criar em Gravatá, finalmente se radicou, em 1971, no Recife, capital do estado, aí fazendo seu curso superior em Filosofia e se tornando, por meio de concurso público, professor de Estética e de Filosofia da Arte na Universidade Federal de Pernambuco. Poeta representativo e significativo, com uma poética inquietantes e enigmática. Possui obra considerável tanto na poesia como no ensaio. É tido pelo filósofo Olavo de Carvalho como um dos maiores intelectuais brasileiros em atividade |


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