Ideologia, Comunicação e Poder
A ideologia oculta partes da realidade se justificar? O professor de história Fernando Dias Andrade traz essa discussão, hoje, à Casa do Saber.
A política vacila: armas, palavras, desenganos

Voltou-se a falar na morte das ideologias. Muitos desconhecem o conceito, mas se tornou um charme traçar seus males e destroçar seus possíveis significados. Um percurso globalizado e ativo que não se restringe aos fatos brasileiros. Bolsonaro assume com ruídos que alimentam delírios de Frota e fogo nas relações internacionais. Isso era esperado. Sai do exército para entrar na história. Entusiasmou-se Não esqueça de suas peripécias e desfazeres anteriores. Ganhou idolatrias e está emocionado. Ele faz parte de algum movimento secreto ou é o combate às ideologias consagradas pelas esquerdas? Não está só. Seus fãs acreditam em mudanças milagrosas. Sorriem e debocham. Seus inimigos se irritam, desacreditam, salientam as tolices. As dúvidas circulam com desmontes e petulâncias.
Há várias maneiras de se definir ideologia. A multiplicidade não está exilada. Uns afirmam que apenas a burguesia possui um discurso ideológico, pois ela omite as desgraças que traz com o capitalismo. Quer saber mais? Dê uma lida nos escritos de Marx ou mesmo em muitos artigos de Marilena Chauí. Gramsci, porém, entende a ideologia como uma concepção de mundo. Todos convivem com valores, tradições, projetos. Não há cabeça que não tenha imaginação. É claro que existem sofisticações, controvérsias acadêmicas, discussões raivosas. Uma sociedade sem especulações, desejos, raivas talvez nunca apareça.
O marxismo tem sofrido derrotas. Consegue ultrapassá-las ou perde adeptos? Quem só ler manuais fica fora das animações mais recentes. Há quem não conheça Eagleton ou quem fique parado nas afirmações stalinistas. E os que deixaram as reflexões socialistas e estão amando o liberalismo? Observe ao seu redor. Veja quem se reserva a não mostrar o que pensa e elogia a neutralidade. Muitos se arrependeram e prometem se livrar de todos os pecados políticos. Nunca tantos ressentimentos surgiram ou frustrações se fizeram presentes. As vaidades desfilam com as vestes da humildade. Uma olhada nas redes sociais nos traz vitrines coloridas. As culpas sempre ocupam lugares e um atiçamento nostálgico de perdas que se propunham a libertar o mundo.
Retomo as possibilidades de sonhar. Lembro-me da solidariedade, Quando ela poderá abrir espaços? O difícil é dividir. O mundo se transformará com a lógica capitalista? Com a concentração de riqueza e de poder a violência não se vai. As manipulações continuam sendo vendidas. Somos animais sociais, no entanto o afeto não é permanente. Derrubamos os outros, produzimos bombas, cultivamos ódios e preconceitos. As utopias existem, balançam futuros. Estranhezas pintam quadros de terror ou de salvações? E as contradições dentro das histórias dos vencidos? Quem foi que mais atacou o anarquismo no século passado? Por que as religiões se seguram na política? Será que viveremos sem crenças? Já ouviu os conselhos dos consultores que profetizam sobre seu futuro?
*Por Paulo Rezende. A astúcia de Ulisses.
***
Escritos de Marilena Chauí - O que é a ideologia da competência - Grupo Autêntica - YouTube
#EscritosDeMarilena Marilena Chaui explica o que é a ideologia da competência, tema de seu segundo livro da coleção Escritos de Marilena Chaui. Assista e conheça o livro: http://grupoautentica.com.br/autentic...
***
Já cantava Cazuza
Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Ah, eu nem acredito[…]
Ideologia, eu quero uma pra viver…
Logo no início da canção, é perceptível o sentimento de frustração, demonstrado na frase “meu partido é um coração partido”. Mas o que isso quer dizer? A falta de orientação, de identificação política e ideológica é expressada muito bem. O cantor se encontra perdido por não partilhar nenhuma visão de mundo ou princípios com grupos ou partidos. Mais adiante da letra, canta: “ideologia, eu quero uma pra viver“.
No sentido da letra, o conceito de ideologia aparece como um conjunto de valores, princípios e doutrinas; seria o desejo de pertencer a um grupo que possui um modo de viver e conviver; o desejo de se “agarrar” em algo para acreditar, como uma ideologia política. Esse sentido pode ser percebido pelos símbolos do comunismo e anarquismo demonstrado no vídeo original da canção, por exemplo.
Além disso, Cazuza concedeu uma entrevista que reforça o sentido dessa palavra. Ele disse:
Quando fiz “Ideologia”, nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no dicionário. Lá estava escrito que indica correntes de pensamentos iguais e tal…
Mas será que esse é o único significado de “Ideologia”?
Origem do termo
Antoine Destutt de Tracy, filósofo iluminista, nascido em 20 de julho de 1754 e descendente de família aristocrática conhecida por ser uma das maiores proprietárias de terra da França, foi o criador do termo “ideologia”.
O objetivo, ao criar esse termo, era recheado de ambição: criar uma ciência que fosse capaz de mapear de forma racional a origem e o desenvolvimento de todas as ideias, combinações e suas consequências – ou seja, originar a “ciência das ideias”. Foi o próprio autor que denominou essa ciência como “ideologia”, originado pelos neologismos dos termos eidos e logos, do grego, significando algo aproximado de “estudo das ideias”.
Na história, logo após Tracy tornar-se membro do Instituto Nacional de Paris na época, ele compôs um grupo, formado por cientistas e filósofos, que tinha como principal missão “reconstruir a França do ponto de vista social”. Para isso, Tracy e seus seguidores viam com bons olhos o impacto da Ideologia dentro da educação, assim, ele foi nomeado como Conselheiro de Instrução Pública pelo Diretório da França e foi responsável por enviar diversas propagandas para escolas da França, destacando a importância que o papel da “Ideologia” poderia ter nos currículos escolares franceses.
Em resumo, Ideologia, para Tracy, significava a “ciência das ideias” e o objetivo principal dessa ciência era estudar e analisar o mapeamento das ideias e suas consequências. A partir dessa concepção e reflexão, segundo o autor, todas as outras ciências poderiam ser derivadas dela. Assim, essa ciência não seria somente o “topo da hierarquia das ideias, uma vez que todas as outras ciências sempre partiam de ideias preconcebidas”, mas ela também promoveria o uso da razão no desenvolvimento das organizações estatais – leis, governança e a sociedade de maneira universal. Vale lembrar que Tracy, como iluminista, era um defensor ínfimo do uso da razão e da ciência para o progresso.
Mas o significado da palavra não ficou por isso só! Na época, a identificação cada vez maior de Tracy e de sua legião com as ideias iluministas levou o termo “Ideologia” a ganhar uma conotação pejorativa. Isso porque Napoleão Bonaparte, também membro honorário do Instituto Nacional de Paris que possuía um enorme orgulho da função que a organização desempenhava na nova França e opositor ferrenho de Tracy, se apropriou do conceito, trazendo um novo sentido negativo para ele: Napoleão começou a utilizar o termo para acusar Tracy e seus seguidores de intensificar as agitações políticas da época, chamando-os de “ideólogos” para diminuir e ridicularizar o trabalho desenvolvido por eles. Por conta disso, ao longo da história, a palavra “ideologia” recebeu inúmeros conceitos, sendo eles positivos ou negativos, discutidos até hoje dentro da política, sociologia, entre outras áreas.
Então, o que significa ideologia?
Os conceitos de ideologia são diversos. Para entendê-los, começaremos pelo autor Norberto Bobbio, em seu livro “Dicionário da Política”, que divide ideologia em duas formas: o sentido “fraco” e “forte” da palavra. Para ele, o sentido fraco significa “um conjunto de ideias e de valores que tem como função orientar comportamentos políticos e coletivos” e o sentido forte tem a concepção baseada no Marxismo, sendo entendido como uma “falsa consciência das relações de domínio entre as classes”.
Vamos nos concentrar, primeiramente, no sentido fraco. Para melhor entendê-lo e dar exemplos, vamos nos basear em uma frase de Terry Eagleton:
Ideologia tem mais a ver com a questão de quem está falando o quê, com quem e com qual finalidade.
No sentido fraco, o conceito de ideologia “casa” perfeitamente com o sentido neutro – utilizado por Cazuza, demonstrado anteriormente. Pertencente ao senso comum, o significado de Ideologia nesse sentido é definido como:
Conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade
Diante disso, podemos definir e identificar com mais facilidade quando algo é considerado ideologia ou não. As ideologias políticas se encaixam muito bem nesse contexto, uma vez que conseguimos explicar elas a partir de o quê são, com quem estão debatendo e com qual finalidade (ferramentas, estratégias, formas).
Um exemplo disso é quando falamos da ideologia socialista:
- O que é socialismo: na definição geral, é um conjunto de ideias e de crenças que se alinham à esquerda política e que defende a extinção da desigualdade, utilizando políticas sociais por parte do estado, por exemplo.
- Qual a finalidade do socialismo: utilizar de estratégias, formas ou ferramentas para extinguir a desigualdade social, de acordo com a sua doutrina política e econômica.
Outro exemplo é de quando falamos da ideologia liberal:
- O que é ideologia liberal: de forma geral, o liberalismo é um conjunto de ideias e de crenças que defende o livre mercado e o estado mínimo tanto na vida do indivíduo quanto na economia.
- Qual a finalidade do liberalismo: utilizar de estratégias, formas ou ferramentas para garantir as liberdades individuais, de acordo com sua doutrina política e econômica
Para saber mais sobre os dois conceitos, o Politize! tem textos sobre essas duas ideologias clicando aqui e aqui.
Já o sentido forte, por outro lado, é explicado sob a percepção do Marxismo. O termo ideologia, nesse caso, possui um sentido crítico. Assim como Napoleão Bonaparte utilizou o termo “Ideólogos” de forma pejorativa, Marx usa-o de forma semelhante. Para ele, ideologia é uma falsa concepção da realidade do indivíduo; éuma percepção da realidade que é baseado de acordo com um ponto de vista advinda da classe dominante, e esta (classe dominante) que possui o monopólio dos meios de produção, utiliza-o a seu favor para ocultar a realidade e alienar outras classes. Tendo esse monopólio, a classe dominante poderia facilmente “manipular, a seu favor, a valoração dos fatos de maneira sistemática”.
Nesse sentido, a ideologia poderia servir como instrumento de recorte da realidade, ocultando o entendimento da realidade política e econômica à sua forma total, beneficiando, assim, a classe dominante em detrimento dos outros, ao mesmo tempo que legitimaria os diversos tipos de desigualdades. Um exemplo utilizado para explicar esse “sentido forte” é a crença de que tal pessoa conseguiu conquistar algo exclusivamente por mérito próprio – a ideia de meritocracia -, por esse sentido, essa crença poderia favorecer as classes dominantes ao defender que a desigualdade é natural e mascarar outros fatores que vão contra essa lógica, como a desigualdade do acesso à educação, saúde e outras necessidades básicas.
***
Café Filosófico - Ideologia de Gênero - YouTube - Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal sobre ideologia de gênero.
***
Comunicação e Poder - Conceito de Poder - CTE -SEAD UFBA - YouTube
****
O que é o Poder:
Poder é o direito de deliberar, agir, mandar e, dependendo do contexto, exercer sua autoridade, soberania, a posse de um domínio, da influência ou da força.
Poder é um termo que se originou a partir do latim possum, que significa “ser capaz de”, e é uma palavra que pode ser aplicada em diversas definições e áreas.
***
O peso dos enganos mórbidos

Não pense que a vida é uma programação definida. Espere as surpresas e tente saber que temos que sobreviver. É difícil apontar que a felicidade está no meio do caminho. Há grandes dificuldades, a complexidade gira, mas especializações em fabricar o falso prosperam. Jair e o seu gabinete do ódio espantam qualquer dignidade. Sustento a perplexidade de observar que os malefícios são aplaudidos por muitos. Será a ingenuidade que traz essências do passado? Estamos ou somos? Quem se desengana?
Na mistura de ansiedades globalizadas, a sociedade se perde.Espera salvações, confunde ideologias, visualiza templos que fixam milagres. Desconfio e me espanto. A palavra ódio evidencia o mesquinho. As mudanças de reflexões cotidianas estragam as esperanças e constroem figuras que enganam, seguidas de séquitos para desfazer a solidariedade. Portanto, é necessário firmar cuidados e denunciar, para que não se sacralize ensaios milicianos.As instituições fraquejam diante das intrigas que cortam a força das leis.
A morbidez se espalha. Os exemplos não impedem que outras ações tragam estradas abertas. Se cada dia se transforma significa que a história não é lugar de apatias ou de tatuagens covardes. Por que, então, se apagar e se solidificar o pânico? Os delírios da Jair são labirínticos, incentivam a morte, fecham com loucuras e ambições políticas doentias. Analisem como se comportam os Ministros, a falta de agenda para reverter a desigualdade.No pico da pandemia, os ruídos dos negócios desprezam a vida. Abraçam-se com torpezas. Desmontam-se. Desfilam num romance que Kafka gostaria de ter escrito.
Teóricos e políticos inventam conceitos que lembram o século passado, celebram esquecimentos, mastigam desfazeres. Fala-se, então do novo, embora prevaleça a repetição apodrecida. É fundamental desafiar e voltar aos poemas que inciaram as arquiteturas das planícies e das cavernas. Confiar em que se submete à servidão e compartilha com o deboche é buscar cair em abismo ou mergulhar em pântanos. O cinismo cansa no seu pacto com os genocídios. Não se ligue nas palavras que afundam sonhos e esfarrapam saberes em troca de um poder que coloca lixo no mundo. A lucidez não é de plástico, fixa estrelas no seu olhar.
Por A astúcia de Ulisses. Paulo Rezende.
REFLEXÕES, EXERCÍCIO E DEBATES
1- Escreva sobre como você entendeu sobre a ideologia da competência?
2- O que diferencia a ideologia socialista da ideologia liberal?
3- O que é poder? Como o poder paralelo se manifesta contra o Estado?
4- Lendo o texto O peso dos enganos mórbidos, explique: " Os delírios da Jair são labirínticos, incentivam a morte, fecham com loucuras e ambições políticas doentias. "
5- Comente: "As manipulações continuam sendo vendidas. Somos animais sociais, no entanto o afeto não é permanente. Derrubamos os outros, produzimos bombas, cultivamos ódios e preconceitos. As utopias existem, balançam futuros".
6- Como a ideologia surgiu no contexto do Marxismo ?
.png)
Comentários
Postar um comentário